quinta-feira, 2 de junho de 2011

POEMA DE UM ALUNO APAE
:
Edo de Natal, 26.05.2011
O Poeta, possivelmente, é o mais capaz de manifestar as angústias e a dor pungente dos desvalidos deste nosso mundo. Eu li Castro Alves em minha juventude e fiquei profundamente marcado por alguns de seus versos. É verdade que o romantismo se presta às maravilhas para comover um jovem cada vez mais sensível às misérias da vida, mesmo que sejam as misérias dos outros.
Castro Alves cede sua voz para que se possa ouvir o grito impotente e desabusado dos africanos, que acabam de perder a sua liberdade e começam a se coisificar como escravos, juridicamente semoventes, entre homens e animais, sem personalidade reconhecida, sem identidade, a não ser a que lhes é atribuída pelos senhores. Estes africanos sabem que os céus desabaram sobre suas cabeças, mas não têm ainda plena consciência do futuro que os espera. O seu desespero e a sua angústia poderia muito bem se manifestar através das palavras do Poeta :
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito... Onde estás, Senhor Deus?(Vozes da África)
Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror perante os céus? (Navio Negreiro)
Mas, quando o próprio desvalido torna-se Poeta ou Artista, quando ele se torna capaz de exprimir, com versos ou com cores, a sua condição de excluído, o resultado sempre é extraordinário. No Hôpital de la Santé, em Paris, doentes com graves problemas psiquiátricos foram incentivados a manifestar-se com tintas e pincéis. O resultado está lá, exposto nas paredes do hospital, pinturas que manifestam violência ou confusão mental, ou apenas cores que preenchem magnificamente o espaço que lhes foi reservado. Simplesmente, obras de arte !
O Poema deste aluno da APAE nos envergonha e nos encanta.
Nos envergonha, por termos um dia, mesmo que tenha sido por um momento, sentido qualquer tipo de superioridade por este ser sensível a quem chamamos de 'excepcional'. Nos envergonha, por vivermos em uma sociedade onde ainda há tantos indivíduos que se consideram superiores aos demais : simplesmente por terem a pele mais clara, ou por terem mais dinheiro, ou por morarem há mais tempo num certo espaço que acreditam ameaçado, ou mais simplesmente ainda por serem uns medíocres que tentam se valorizar diminuindo virtualmente os outros.
Mas, o Poema também nos encanta. Primeiramente e acima de tudo, por nos permitir entrarmos no jardim secreto de seu autor e descobrirmos que atrás daquele ser frágil e simples reside um ser sensível e humano, extraordinariamente humano. Nos encanta, por compreendermos que o desconhecimento do outro é o maior vetor dos preconceitos de superioridade que afetam nossa sociedade. Nos encanta, enfim, por ser singelo e franco, por manifestar suas ideias e seus sentimentos da maneira mais simples e eficaz : através da Poesia.
Fiquemos por aqui. Vamos ler e reler juntos o Poema do aluno da APAE.
Edo de Natal, 26.05.2011

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