terça-feira, 30 de agosto de 2011

ACLA NO CEARÁ-MIRIM



O Ceará-Mirim ganhou na última quarta=-feira a sua Academia de Letras e Artes [ACLA], que nesse dia se instalou em sessão solene e deu posse aos seus primeiros 25 ocupantes. Há muito não se via, na cidade, acontecimento dessa dimensão, especialmente na área da cultura, sempre tão esquecida ou menosprezada pelos pilotos do estado, como diria Shakespeare. Só faltou mesmo a presença do prefeito, que ignorou solenemente o fato; sequer mandou representante ou um mero telegrama, como fazem as pessoas bem educadas no exercício de semelhante função.Idealizada por Pedro Simões Neto que, sem ser filho da terra, viveu parte de sua juventude lá, a ACLA surge cheia de boas intenções e projetos que, se consolidados, restituirão à cidade as suas glórias de um passado em que a cidade podia orgulhar-se de seus intelectuais, entre os quais, Madalena Antunes Pereira, Nilo Pereira, Edgar Barbosa, Rodolfo Garcia e Orlando Dantas, que se tornaram nomes de expressão nacional nas letras literárias e jornalísticas.
Fui com minha prima Maria Antonia, neta de Edgar Barbosa, um dos patronos da mais nova instituição do Rio Grande do Norte e lá tive o prazer de encontrar meus primos maternos e paternos, que lá vivem ou se deslocaram até Ceará-Mirim, para prestigiar esse acontecimento que já faz parte da História.
Planejara escrever sobre o notável acontecem um artigo mais minucioso, porém estou sem condições de fazê-lo, por causa de um derrame ocular. Limito-me a reproduzir a lista de Patronos e Acadêmicos, ou seja, de intelectuais do passado e do presente.

Ei-la:

PATRONOS/ACADÊMICOS

Cadeira n.1 – Nilo Pereira; Vaio César Cruz Azevedo

Cadeira n.2 – Edgar Barbosa; Cléa Bezerra de Melo

Cadeira n.3 – Juvenal Antunes; Paulo de Tarso

Cadeira n.4 – Maria Madalena Antunes Pereira; Lúcia Helena

Cadeira n.5 – Adelle de Oliveira; Ciro Tavares

Cadeira n.6 – Augusto Meira; Emmanuel Cavalcanti

Cadeira n.7 – Rodolfo Garcia; (Reservado para Roberto Furtado)

Cadeira n.8 – Júlio Magalhães de Sena; Gibson Machado

Cadeira n.9 – Inácio Meira Pires ; (Reservado para Múcio Vicente

Cadeira n.10 – Jayme Adour da Câmara

Cadeira n.11 – Padre Jorge O’Grady de Paiva; José de Anchieta Cavalvanti

Cadeira n.12 – Elviro Carrilho da Fonseca

Cadeira n.13 – Herculano Bandeira Melo;

Cadeira n.14 – José Emídio Rodrigues Galhardo; Janilson Dias de Oliveira

Cadeira n.15 – José Alcino Carneiro dos Anjos

Cadeira n.16 – Francisco Pereira Sobral;

Cadeira n.17 Etelvina Antunes Lemos; Sayonara Montenegro Rodrigues

Cadeira n.18 – Antonio Glicério;

Cadeira n.19 – Dolores Cavalcanti;

Cadeira n.20 – Francisco de Salles Meira e Sá; Pedro Simões

Cadeira n.21 – Anete Varela; Francisco de Assis Rodrigues

Cadeira n.22 – Rafael Fernandes Sobral; Franklin Marinho de Queiroz

Cadeira n.23 – José Pacheco Dantas; Leonor Soares

Cadeira n.24 – Manuel Fabrício de Souza (Amarildo)

Cadeira .25 – Bartolomeu Correia de Melo; Ormuz Barbalho Simonetti


SÓCIO HONORÁRO

Diógene da Cunha Lima


SÓCIOS BENEMÉRITOS

José Sanderson Deodato Fernandes de Negreiros

Carlos Roberto de Miranda Gomes

Eduardo Gosson

Jansen Leiros Ferreira


SÓCIO CORRESPONDENTES

Maria Conceição da Câmara (Ceicinha) – Portugal/Vila Bispo

Geraldo Pereira- Pernambuco/Recife

Hammilton de Sá Dantas – Brasília/DF



Jornalista- Franklim Jorge

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

JOSÉ JOAQUIM, UM CRISTÃO ANÔNIMO

(Do Livro Contos do Entardecer, Capítulo X, de Jansen Leiros – 1983)

Nas últimas décadas do século passado, em afastada cidade do sertão cearense, nascera José Joaquim. Sua mãe era modesta empregada doméstica da casa paroquial. Seu pai, o vigário João Marrecas, tio do grande taumaturgo do Juazeiro.
José Joaquim fora reconhecido pelo padre e logo que terminou o curso primário, foi mandado para a capital a fim de cursar o seminário. Com ele seguiu seu primo, algo mais moço, que se tornaria o foco das atenções do mundo religioso de nosso país, no início deste século, até a década de trinta.
Ao par de algum tempo, morrera seu pai e, como sua mãe não possuía recursos financeiros para custear seus estudos, José Joaquim retorna ao Cariri, sem haver sido ordenado padre secular, porém, tonsurado.
Era jovem ainda. Tornou-se professor de língua latina da pequena escola que lhe deixara o pai e assumiu as responsabilidades da família: sua mãe e uma tia octogenária.
José Joaquim era, na aparência, calmo e comedido. Estudioso e muito inteligente, dedicou-se à pesquisa histórica. Versátil, conhecia além do latim, o grego, o francês e o alemão, o que lhe proporcionava ler seus compêndios no original. Era grande sua inclinação para a filosofia. Leu Platão e Aristóteles, mas preferiu seguir as linhas filosóficas do cristianismo. Há entre os manuscritos que deixou, além das célebres cartas em defesa do padre do Juazeiro, alguns comentários sobre o pensamento filosófico de São Tomás de Aquino. Era profundamente sensível às coisas do espírito. Seu mundo mental era povoado de sonhos platônicos. Seu coração era terno e amoroso, atendendo aos necessitados da alma com um carinho imenso.
Amante da natureza, sua morada bucólica era um autêntico zoo-botânico. Criava quase uma centena de animais de vários tipos, controlava sua reprodução, planejava acasalamentos híbridos criando novas espécies, as quais costumava presentear a outros aficcionados. Chegou a elaborar um catálogo das variedades vegetais da região e cultivava plantas medicinais com as quais preparava medicamentos caseiros, para ministrar aos doentes pobres que atendia.
José Joaquim, a par de suas atividades docentes, dos trabalhos ligados ao seu mundo zoo-botânico, dos estudos de filosofia e religião que o empolgavam, costumava visitar famílias pobres, sondar-lhes as possibilidades, ajudando-as no que lhe era possível. Aqui, conduzia alguém para empregar-se nas fazendas de pecuaristas amigos; ali, estimulava atividades agrícolas, orientando e fornecendo sementes. Acolá, distribuía roupas usadas, conseguidas com famílias abastadas ou remédios para os casos mais graves, quando suas mezinhas não fossem aconselháveis.
José Joaquim era assim, caritativo, bom, amoroso, prestativo, humano, dócil e humilde. Porém, diante da injustiça, levantava-se o advogado tenaz e diligente, palavra fácil e incisiva, na defesa do justo. Era um apóstolo do Bem.
Sua vida, entretanto, de simples e despretenciosa não o projetou na medida se seus méritos e passou por ela quase no anonimato, não fora a defesa que assumiu e fez valer em favor de seu primo, o iluminado taumaturgo do Ceará.
José Joaquim, fora demasiado veemente nas cartas que dirigiu ao bispo, em defesa daquele que se tornaria um ídolo nacional, do que resultou, também, ser marginalizado pela igreja. Cristão convicto, José Joaquim não se incomodou com as acusações que recebera através da diocese, tão pouco declinou em qualquer dos pontos da defesa dos direitos de seu primo, a quem estava ligado por laços de profunda e sólida afinidade.
Os fatos atribuídos ao taumaturgo impressionaram de alguma forma ao professor José Joaquim, induzindo-o a fazer pesquisa e profundos estudos no campo da meta-psíquica e seus efeitos paranormais.
Conhecia toda a região, casa por casa e, com a gente do campo confundia-se pela identidade de costumes e pela capacidade de assimilação de que era possuidor. Com o vaqueiro, falava sua linguagem; com os agricultores, sobre a cultura que desenvolviam, orientando-os; com mecânicos, sobre os processos técnicos utilizados; com religiosos, envolvia-os em sentimentos de fé. Com crianças, tornava-se uma delas, brincava de rodas e cantava canções; contava-lhes histórias, nas quais os elucidava para a vida. Com os velhos, lhes inspirava coragem e confiança, amor pelos semelhantes e pela vida. Junto do pobre, era um permanente defensor de seus direitos; com os ricos, funcionava como mediador, moderando-lhes os arroubos egocêntricos, chamando-os à razão.
Contam que certo dia, José Joaquim tomou conhecimento de que vinham-lhe roubado algumas galinhas. Refletiu um pouco e foi até à despensa da casa. Encheu uma cesta de vime com uma pequena feira, fez um pacote de roupas usadas e escreveu um bilhete: - “Meu irmão noturno. Talvez você esteja precisando, também, de alguns mantimentos. Aí vão diversos. Fiz, ainda, um pacote de roupas usadas, mas que lhe servirão, estou certo, nas noites de frio. Se necessitar de outras aves, pode vir buscá-las. Eu as darei. Obrigado”.
Se o amigo do alheio leu o bilhete, não se sabe, mas levou a cesta e o pacote de roupas, e não voltou a roubar-lhes as galinhas.
De outra feita, quando descia pelo pátio da feira defrontou-se com um vendedor que transportava uns cinqüenta galos de campina, numa gaiola de palitos de coqueiro. Parou diante dele e perguntou o preço dos passarinhos, já com o porta-níqueis na mão. Informado do valor, entregou-lhe dois “patacões” e, ali mesmo, sob os olhares de espanto de quantos presenciavam a cena, soltou os passarinhos. Voltando-se para os circunstantes, falou com um sorriso: - Deus os criou livres. Quem somos nós para prendê-los? E continuou sua caminhada pela vereda da Sé.
Sua vida fora cheia de episódios assim, curiosos, mas que passaram desapercebidos pela sua absoluta simplicidade.
No princípio do século, José Joaquim começou ater visões que a ninguém revelava. Certa feita, quando se deitara, ouviu baterem à porta e foi atender. Eram doze horas da noite. Um homem de estatura mediana, magro, fisionomia lusitana, cabelos brancos, faces coradas e bastante simpático, lhe cumprimentou e, convidado, sentou-se à mesa, repleta de papéis e livros. Com ar sereno, voz pausada, mas firme, falou: - “Temos, entre nós, laços de profunda afetividade, solidificados pelo cadinho do tempo. Estivemos juntos em muitas ocasiões, desde o passado remoto. Juntos, precisamos empreender um trabalho, planejado quando ainda não havias descido ao corpo. Evidentemente, não iremos realizá-lo agora, todavia, precisamos ajustar sintonias, objetivando propiciá-lo no momento oportuno, enfocando os mecanismos da lei de causa e efeito, em execução através dos processos reencarnatórios. Hoje, serão ajustes nos circuitos endócrinos para obtenção de melhor sintonia através dos canais da epífise. Amanhã, a execução da tarefa pelos santificantes processos da inspiração medianímica, no entardecer do ciclo. Tua vida te creditou valores estimáveis. Ressarciste boa parte do teu carma, pelo teu comportamento equilibrado e sóbrio, amoroso e paciente, sensato e ilibado. Em razão de tudo isso, vimos te visitar, por oportuno, e te dizer que chegou o momento de iniciarmos o preparativos de uma nova etapa, quando serão executados nossos projetos. Após o desencarne terá um reconfortante e merecido descanso em colônia de repouso.
No entardecer do século, será o momento de executar a santificante tarefa, dentro dos planos aqui traçados. Todavia, para tanto, necessitamos de tua concordância, pois a lei da vida respeita o livre arbítrio do homem.
José Joaquim não podia conter as emoções daquela hora. Suas lágrimas umedeceram seus olhos e na firmeza de seu olhar, sentia-se a determinação do dever a cumprir. Naquele instante reconhecera o amigo de milênios a abraçou-o comovido.
José Joaquim despertou do transe. Na retina de sua mente, estava clara, muito clara a imagem de seu amigo espiritual.
Depois daquela visão, José Joaquim tornou-se taciturno, passava a maior parte dos dias meditando e orando. A lembrança daquele iluminado amigo o tornava nostálgico, mas feliz pela certeza de que estivera no caminho certo, praticando o “amai-vos uns aos outros”.
Algum tempo depois, no seu zoo-botânico, rodeado de uma natureza que ele próprio ajudou a criar, morrera José Joaquim, com um sorriso nos lábios. Ele já sonhava com o paraíso capelino, perdido na noite do tempo. Seu paraíso, agora, era o Universo de Deus.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

GABRIELA GUERREIRO

DE BRASÍLIA

Um grupo de senadores lançou nesta segunda-feira (15) uma frente suprapartidária de apoio à presidente Dilma Rousseff para o combate à corrupção no Executivo. Os parlamentares se revezam com discursos na tribuna da Casa em apoio à "limpeza" que Dilma promoveu no Ministério dos Transportes, afastando servidores suspeitos de envolvimento em irregularidades.
Depois que a Câmara paralisou os trabalhos em resposta à "faxina" da presidente, os senadores manifestaram apoio à ação de Dilma.
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O senador Pedro Simon (PMDB-RS), idealizador do movimento, pediu que o Congresso se una para permitir que o governo tome medidas anti-corrupção.
"Se, neste momento, nesta segunda-feira, 15 de agosto, um mês histórico, uma semana histórica, que invoca a renúncia do Jânio, a morte do Jango e a legalidade do Brizola, se nessa hora nós tivermos condições de fazer esse movimento, se o presidente Sarney tiver a grandeza de ser presidente do Congresso e os líderes tiverem um pouco mais de humildade, nós podemos iniciar o movimento."
O peemedebista cobrou que Dilma, além focar a "limpeza" nos Transportes, atinja outros partidos que ocupam cargos na Esplanada dos Ministérios.
"Claro que não pode a presidenta fazer apuração em cima do Partido Republicano, em cima do PMDB e não fazer no PT, fazer no PDT, até porque, lamentavelmente, com todo respeito, na composição do governo, nosso amigo Lula exagerou. É muito PT e muito pouco de outros partidos."
Além de Simon, outros senadores também cobraram de Dilma uma "faxina ampla" que abrigue todos os partidos aliados.
"A presidente tem que ter a consciência que a faxina tem de ser completa. Não pode deixar outros partidos, inclusive o meu, o PMDB, sem ser punido. Ela tem de punir. O combate não pode ser leviano", disse o senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE).
"Pelo menos aqui no Senado a presidente Dilma não vai ficar refém ou vítima de dificuldades. Eu apoio o movimento pela frente suprapartidária de combate a corrupção e impunidade", disse Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR).
O grupo classificou a segunda-feira de "cívica" pela decisão do Senado de reagir às denúncias de corrupção no governo.
Além de governistas, senadores da oposição também manifestaram apoio às medidas anti-corrupção.
"Vamos dizer à presidente que ela conte com uma base parlamentar de defesa, não de seu governo, mas de defesa do Brasil. Enquanto tiver corrupção no Brasil, qualquer governo não terá sucesso. A base parlamentar que deve ser constituída nesta Casa é uma base de defesa do Brasil", disse o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).
FERNANDO, UM PRÍNCIPE SOLITÁRIO

(Do Livro Contos do Entardecer – Capítulo IX – de Jansen Leiros – 1983)

Os jardins do palácio estavam iluminados. Todos os lampiões acesos. Muitas carruagens estacionadas no pátio fronteiriço. O grande salão fora aberto para a festa de noivado de Joanna de Sevilha – filha natural do Rei e uma monja mauritana. Os convidados chegavam em belas carruagens e os jardins pareciam uma aquarela, tais os matizes das ricas toaletes. A alegria era contagiante.
O casamento de Joanna fazia parte do esquema político do Rei, que desejava conquistar toda a península, através dos casamentos de seus filhos – O Rei era pródigo em paternidade. Além de seus nove filhos legítimos, doze eram naturais e a todos assistia com o mesmo carinho paternal, malgrado os comentários maledicentes.
Nos portões da guarda, entretanto, não havia tanta euforia. Dois jovens cavalheiros conversavam algo contrariados. Eram Fernando e Eduardo. O primeiro, barão de Monte-Blanco – um dos filhos naturais do Rei e irmão germano da noiva. O segundo, duque da Mauritânia, sobrinho do Rei. Eles comandavam a guarda do palácio.
Naquela noite, O rei fora avisado de que grupos descontentes com aquele noivado, prometiam estragar a festa. Por essa razão, destacou o filho, então coronel da cavalaria real, para comandar o policiamento do palácio, juntamente com seu primo Eduardo, capitão da guarda, pelo senso de disciplina que possuíam. Essa determinação, entretanto, desagradou a Fernando, que alimentava esperanças de cortejar Isabel, condessa de Porto Saraiva, cuja família fora convidada para a cerimônia do noivado.
Mas, jovem de bom caráter e disciplinado, logo conformou-se com a missão que lhe fora confiada. Ele e Eduardo, então resolveram esgrimir um pouco, para esquecerem o sangue naquela noite fria. E os jardins transformaram-se em palco da belíssima demonstração de suas habilidades com florim.
Fernando era um belo rapaz. Longilíneo, tez morena, cabelos castanho-alourados, olhar muito vivo e penetrante. Personalidade forte, embora fino e educado, inteligente, simpático, insinuante e algo convencido – um autêntico cavalheiro. Perfeccionista por índole, mas diplomático no trato, tornou-se conselheiro do Rei para assuntos político-administrativos, o que lhe assegurou, mais tarde, a nomeação para o cargo de embaixador do reino em países vizinhos.
O que mais se admirava em sua personalidade era a capacidade de ouvir com serenidade qualquer interlocutor e, em seguida, quando lhe concediam a palavra, argüir com tal segurança que chagava a dominar as situações mais difíceis. Sua lucidez impressionava.
Sua beleza máscula tornara-o cobiçado pelos melhores partidos. Seu pai tinha planos para seu futuro, nos quais incluía um casamento com uma princesa italiana, para onde desejava estender os domínios de seu reino. Fernando, porém, somente alimentava sentimentos para a bela Isabelita – a condessa de olhos ternos. Seu amor era sincero e nenhuma outra mulher lhe havia prendido tanto a atenção. Isabel, todavia, não correspondia à sua corte.
Por outro lado, o pai da Isabel não via com bons olhos aquela inclinação de Fernando por sua filha, principalmente porque já a havia prometido ao duque da Áustria, Dom Felipe, troca de certos favores – o casamento beneficiaria à família da noiva. Em face disso, resolvera mandá-la para Castela, depois para Paris, onde residiam parentes seus, evitando que se fortalecessem os laços afetivos de Fernando e que Isabel não lhe resistisse à corte. A condessa viajou, retornando anos depois, casada.
Fernando, além dos óbices naturais que o problema lhe interpunha ao caminho, sentia-se pouco motivado para empreender uma luta pelos seus anseios, porque não estava seguro dos sentimentos de Isabel e ele sabia respeitar as opiniões oponentes com muita nobreza de caráter. Daí, envolveu-se em profunda depressão. Desejou partir para as terras de além-mar, há pouco descobertas. Seria um pioneiro.
O pai demoveu-lhe a idéia de partir, prometendo interceder junto ao pai de Isabel, mas foram debalde os esforços do Rei. Isabel desposara o duque da Áustria, o que valeu à família um título de nobreza – o grande sonho do velho burguês.
Fernando definhava. A vida, para ele, não tinha mais sentido. Suas noites eram povoadas de pesadelos e seus dia tão insípidos que o belo príncipe tornou-se taciturno e apático. Na verdade, Fernando jamais se ligara a ninguém. A vida lhe testaria na solidão, pois outrora abusara das ligações afetivas (essa intuição lhe surgia quase nítida na tela de sua mente). Ele se acabrunhava e sofria. O Rei, que o amava muito, também entristecera e se desdobrou em cuidados paternais.
Fernando isolou-se na mansão campestre da família de sua mãe, aliás, herança sua. Lá, dedicou-se aos estudos filosóficos, passando noite e dia a compulsar pesados compêndios e a corresponder-se com os mais conhecidos pensadores da época. Noutras ocasiões, perambulava pelos campos e cavernas das cercanias, selecionando e colhendo espécies vegetais ou caçando animais silvestres para domesticá-los. Certo dia recebeu a visita da Rainha, esposa de seu pai e a presenteou com um belo casal de faisão, de variedade rara, fruto de acasalamentos por ele controlados. A Rainha ficou tão agradecida que lhe retribuiu com belíssimas sedas, vindas do oriente.
A tristeza, porém, era companheira inseparável de Fernando. Dois anos depois havia definhado tanto, que fora removido quase sem forças para o palácio do Rei, onde veio a falecer. Morrera de tristeza. Toda a corte chorou o desaparecimento daquele jovem de rara beleza, de contagiante simpatia, que a conquistara definitivamente.
Seu espírito escreveu um giro espiral ascendente e, atravessando dimensões, chegou às margens de sereno lago astralino. Sentou-se calmamente na relva macia e olhou o céu. As lembranças desfilavam em sua mente espiritual, projetadas de um passado distante. Surgia-lhe imponente e colossal Capela, reinando em seu sistema, caminhando pelo Universo de Deus, como, um dia, caminhará nosso sol após o entardecer. Seguia-se o exílio: o antigo Egito, a Tessália, a Judéia, as costas da Guiné, as paisagens bucólicas da Península Ibérica, os escaldantes desertos da Arábia. Os acertos e desacertos de suas vidas. A soma de débitos contraídos. Os sofrimentos; suas revoltas; por fim alguns ressarcimentos pela dor. A dor que ensina e elucida as almas.
Sobre as águas tranqüilas do lago, levitavam três entidades luminosas em sua direção. Fernando, reconhecendo a estrela cintilante que se fazia guia e que chegara ali, ergueu-se e abraçou-a comovido. Em seguida, Mirim e Rachel o envolveram em carinhoso amplexo, felizes e radiantes.
Doce e ternamente, falou a Estrela Guia: ION, filho amado! Venceste mais uma etapa. Repudiado em razão dos laços de teu nascimento, com humildade e simpatia conquistaste os corações endurecidos que te aceitaram e te admiraram a personalidade. Foste testado na solidão e não te revoltaste. Foste ferido nos mais puros sentimentos e não te desesperaste. Foste belo e não abusaste da beleza. Foste senhor, mas não tiveste servos, fizeste amigos sinceros e fies que muito te amam. ION, Jesus te abençoa.









segunda-feira, 15 de agosto de 2011


MOHAMED. UM FILÓSOFO MULÇUMANO
                  (Do Livro Contos do Entardecer – Capítulo VIII – de Jansen Leiros – 1983)


As torres das mesquitas faziam contraste com o céu azul e límpido de Córdoba. O domínio muçulmano na península se consolidara e gerações árabe-ibéricas desenvolviam-se naquelas terras de sol quente. A bravura daquela gente marcou época.
Era o ano de 1126 de nossa era. Na mansão do cádi havia um movimento inusitado. Guardas e serviçais iam e vinham agitados nos preparativos de grande festa. Nascera, sob o signo de Peixes, o primogênito Mohammed-ibn-Walid.
Aquele nascimento fora esperado com muita ansiedade, pois o cádi ainda não tinha descendência, o que lhe criaria, no futuro, sérios embaraços à sucessão.
Mohammed era uma criança saudável, inteligente, masculinamente bela. Desde muito cedo demonstrou seus pendores para as artes, principalmente a música, tendo incursionado pelas artes plásticas
Na escola, demonstrou tendências para a matemática e para as ciências, colocando-se entre os mais aplicados. Inquieto e altivo, impunha-se entre os companheiros pela liderança nata de que era possuidor. Sua rapidez de raciocínio e a segurança dos conceitos esposados, sobre quaisquer assuntos, fizeram-no um jovem respeitado e admirado por todos, na velha Córdoba.

Na maioridade, inclinou-se pelos estudos filosóficos, principalmente as teorias de Aristóteles, de cujo sistema tornou-se notável comentarista, havendo publicado inúmeras obras nesse sentido. Amadurecendo suas idéias, chegou a ser influenciado pelo sistema neoplatônico.
Mohammed defendia a harmonia entre a razão e os conceitos religiosos, criando uma teoria que se denominou: da dupla verdade. Evidentemente, esse segmento de seu pensamento filosófico destoava daquilo que ele sentia no interior de seu espírito, mas, polêmico por impulso e de alguma forma orgulhoso de sua erudição, enveredou por caminhos difíceis por amor ao casuísmo, em dissonância com suas tendências interiores, o que, aliás, não chegou a causar-lhe maiores conflitos, tal a versatilidade de que era portador. A teoria da dupla verdade baseava-se na filosofia como forma racional da verdade, quando utilizadas pelas pessoas cultas; e a teoria religiosa como segmento metafórico da verdade, para os que não tivessem erudição. Em razão desses conceitos, Mohhammed suscitou sérias críticas dos filósofos do cristianismo, tendo como maior de seus opositores São Tomás de Aquino.
Sua vida transcorreu em atmosfera essencialmente intelectual. Em sua existência de setenta e dois anos, Mohammed produziu uma vintena de obras versando sobre filosofia, direito e matemática. Suas últimas obras, entretanto, tratavam de medicina, ciência que abraçou com muita dedicação após os quarenta anos de idade. Seus comentários filosóficos, todavia, o tornaram muito conhecido, pois serviram de embasamento aos estudos aristotélicos, da idade média ao renascimento.
O que o levou a dedicar-se aos estudos da medicina foi seu espírito de pesquisa, quase indomável. Amigo que era do Califa Mara-Yussuf, do Marrocos e havendo morrido seu médico particular, Mohammed, na ausência de um substituto que inspirasse a confiança do Califa, entregou-se de corpo e alma às pesquisas naquele campo, tornando-se, em pouco tempo, médico oficial do Califado.
Algum tempo depois foi nomeado cádi de Sevilha e em 1169, com a morte de seu pai, tornou-se cádi de Córdoba por direito hereditário, dinastia muçulmana que durou até a retomada da Península por Fernando de Aragão, o Rei-Católico.
Certa noite, quando a lua deitava seus raios prateados sobre a terra, Mohammed despertou em ambiente astralino e viu-se circundado por três ilustres personagens, vestidos à moda nazarena. Aquele que lhe pareceu mais categorizado, com profunda ternura, o saudou e disse: - ION amado! Quanta alegria. Enfim podes receber os galardões da vitória. Soubeste superar os óbices do caminho. Tiveste o poder e não abusaste dele; manipulaste a sabedoria, mas não se envaideceste a ponto de te prejudicar ou comprometer sua ascensão; enfrentaste dissabores políticos e não te revoltaste. Continua ION. Continua tua tarefa com a mesma disposição e confiança em Deus. Descansa esse final de experiência para, no futuro, iniciares novas etapas, quando Jesus te provará no amor ao próximo, na humildade, na paciência e na resignação, posto que restas ressarcir alguns compromissos do passado, ligados à tua vida afetiva. Deus te abençoe e a todos nós. Desapareceu.
Mohammed despertou daquele sonho com a maravilhosa sensação de paz; era como se regressasse do céu. Veio-lhe, daí, a lembrança nostálgica de um maravilhoso mundo distante e indefinido, perdido no tempo e no espaço, em dimensões alheias à sua percepção.
A neve tingiu de mansinho os cabelos de Mohammed. Ele envelhecera rodeado de pessoas amadas que o queriam com carinho e ternura. Sua presença era requisitada nas mais importantes reuniões da época e sua palavra, cheia de sabedoria e sensatez, era escutada com respeito.
Aos setenta e dois anos, desencarnou Mohammed com um sorriso nos lábios e cercado de luzes cintilantes.



O GUAPORÉ TEM JEITO!
                                   (Pedro Simões Neto)
A Casa grande do Engenho Guaporé, convertido em Museu Nilo Pereira, um dos cartões de visita de Ceará-Mirim, objeto do descaso e da depredação do seu acervo, tem jeito, segundo parecer informal da equipe técnica que a ACLA trouxe do Recife, depois das prospecções realizadas no próprio local.

Os três técnicos, Rozze Domingues e Carlos Ishigami (arquitetos) e Sandra Ishigami (res...tauradora e historiadora), que administram um projeto de restauração da arte sacra pernambucana, avaliado em 30 milhoes de reais, nos apresentaram até um esboço de anteprojeto que prevê a ampliação do sítio histórico, a criação de um "em torno" da casa, sem contar com obras de restauração da casa e da capela.

Detalhe curioso é que o Prefeito Antonio Peixoto, avisado pelo seu serviço de "inteligência", dirigiu-se ao local e lá foi entrevistado pelo arquiteto Carlos Ishigami que gravou todo o depoimento do chefe do executivo municipal.

A pergunta que não quer calar: sendo viável a restauração e o projeto de revitalização desse patrimônio, importantissimo para qualquer iniciativa turística no município, por que ninguém tomou a iniciativa para a sua concretização?

Com a palavra o responsável pelo tombamento e preservação - a Fundação José Augusto - e a Prefeitura Municipal de Ceará-Mirim, vinculada à obrigação de manter o próprio do município.

Vamos prosseguir. Ainda este mês, os orgãos culturais de Macaíba e a ACLA vão pedir uma audiência com a Governadora e a Secretária da Cultura para negociação de alguns projetos de interesse comum, especialmente o do Guaporé, com uma nova formatação.

CEARÁ-MIRIM TEM JEITO. com inteligência, persistência e amor à terra.
 



QUEIRDOS COMPANHEIROS ACADÊMICOS, COMPANHEIOS DE ESTUDOS FILOSÓFICOS E MEUS CONSANGUÍNEOS, AOS QUAIS AMO MUITO E, POR FIM, AOS AMIGOS DO CORAÇÃO.

O PROJETO DIVIINO PARA A CRIAÇÃO DOS SERES HUMANMOS, EM TODA A EXTENÇÃO DOS UNIVERSOS, CONTEMPLOU O MECANISMO DE REPRODUÇÃO DOS SERES COM A PARTICIPAÇÃO DE UM ELEMENTO ATIVO (MASCULINO), UM FEMININO (PASSIVO) E UM TERCEIRO ELEMENTO, FRUTO DO MECANISMO REPRODUTOR. E ESTAVA CRIADA A TRINTADADE PARA TODOS OS SERES. DE FORMA GENÉRICA, HOMENS E ANIMAIS.
É BEM VERDADE QUE O PROCEDIMENTO REPRODUTIVO SE ESTENDE DE MUITAS OUTRAS FORMAS, PORÉM, UM ASPECTO QUE NOS PRENDE A ATENÇÃO É O PRINCÍPIO DOS SENTIMENTOS QUE PROMOVEM O LINK ENTRE "PROCRIADOR" E PROCRIADO", REPLETOS DE AMOR E PROTEÇÃO, QUER SEJA SOB A CARACTERÍSTICA DO INSTINTO ANIMAL, QUERE SEJA PELO DESENVOLVIMENTO DO "EU" ESPIRITUAL QUE ABRIGA ESSES SERES.
A HOMENAGEM AO " P A I ", VIA DE CONSEQÜÊNCIA, É BASICAMENTE UMA HOMENAGEM AO CRIADOR DO UNIVERSO QUE NOS FEZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA.
AOS PAIS DO UNIVERSO, O PREITO DE AMOR À CRIAÇÃO.

Jansen Leiros